Vivemos em uma sociedade que, há muito tempo, separa o todo em partes e tende a olhar para cada uma delas de modo isolado. Não à toa, fazer processos de integração é tão desafiador para nós. Como seria se pudéssemos utilizar as queixas físicas quase como uma bússola para olhar para o nosso mundo interno e para os anseios da nossa alma?
Desde muito nova tenho questões bastante profundas em relação à minha própria imagem. Efetivamente, nunca fui obesa, mas sempre me senti assim. Ainda sem conseguir traduzir muito bem, a sensação era a de estar sempre maior, mais pesada.
Quando comecei a estudar mais profundamente a conexão entre psique e corpo, muitas coisas passaram a fazer sentido para mim. Comecei a perceber o quanto o meu peso e a minha constituição física estavam profundamente conectados a experiências em que senti que precisava ser forte, dar conta sozinha, lidar com o abandono, a falta de acolhimento, a sensação de não pertencimento, o medo da escassez, a necessidade de proteção, a perda de referências afetivas, as vivências de desamparo e a impossibilidade de “digerir” determinadas experiências da vida.
Não reconheço no meu comportamento uma compulsão alimentar, embora, em muitos momentos, eu coma emocionalmente. Também percebo o quanto, em situações em que me sinto sozinha ou preciso dar conta de algo desafiador, o meu corpo entra em estado de sobrevivência e retém. Segura. Não deixa ir.
Às vezes, o corpo acumula gordura como quem constrói uma parede, um casulo ou uma reserva de sobrevivência. Não apenas comida, mas proteção, calor, presença e amparo. O corpo passa a carregar uma “massa” que, muitas vezes, representa: peso emocional não metabolizado, excesso de responsabilidades, necessidade inconsciente de ocupar espaço, proteção contra exposição, tentativa de compensar um vazio interno, fidelidades invisíveis ao sistema familiar, identificação com figuras maternas sofridas, medo inconsciente de expansão, do desejo ou da sexualidade.
Os sintomas expressam aquilo que a nossa consciência ainda não conseguiu simbolizar. A obesidade pode representar simbolicamente as nossas armaduras somáticas, porque, para além do Ego, existe uma inteligência arcaica e muito sutil tentando nos proteger e garantir a nossa vida. O cérebro não deseja a nossa felicidade. Ele deseja a nossa sobrevivência.
Quando me sinto desprotegida? Abandonada? Sozinha? O que temo perder se eu emagrecer? Que identidade o meu corpo sustenta? Que “fomes” eu verdadeiramente tenho? Que partes minhas ainda vivem em estado de sobrevivência?
Só através de um processo amoroso e cheio de sentido somos capazes de ajudar o nosso sistema nervoso a compreender que é seguro caminhar em direção ao que desejamos. As coisas começam a mudar quando, finalmente, nos sentimos seguras.
Talvez o corpo nunca tenha sido o inimigo. Muito pelo contrário, talvez ele apenas tenha encontrado a melhor forma possível de contar a nossa história.