A depressão hoje está entre as doenças que mais incapacitam no mundo. Segundo dados da OMS, ocupa o 1º lugar quando considerado o tempo vivido com incapacitação ao longo da vida (11,9%). Ainda assim, muitas vezes continua sendo mal compreendida como “falta de força de vontade”, tristeza, fraqueza, “corpo mole” ou desânimo.
Mas a verdade é que ninguém entra neste estado de colapso por mero acaso. A psique não entra em desligamento aleatoriamente. O corpo não fica em modo de espera sem motivo, e a alma não perde a vitalidade sem uma história.
Por trás da depressão há um ser humano em estado de sobrevivência, tentando “ganhar tempo” diante de conflitos profundos demais. Quando buscamos cuidar destas pessoas, tentamos compreender a lógica do sintoma e o sentido do sofrimento.
A psique é uma espécie de organismo vivo desejante. Quando a vida flui, conseguimos direcionar energia para desejar, criar, amar, trabalhar, relacionar-nos e planejar o futuro. Mas, quando essa energia fica aprisionada em conflitos, ela deixa de circular e nutrir, como a corrente sanguínea do nosso corpo que, quando prejudicada, deixa de irrigar determinadas partes, levando-as a um estado de morte.
A energia psíquica congelada faz surgir sintomas como: apatia, esvaziamento, fadiga existencial, perda de sentido, desconexão emocional, anestesia afetiva e colapso motivacional. É como se o Ego perdesse sua posição organizadora diante da vida, entrando numa profunda crise de identidade, pertencimento e direção existencial.
No núcleo da depressão haverá quase sempre uma profunda sensação de perda: do lugar, da identidade, da direção, do sentido, do valor e do pertencimento, seja ele real ou simbólico. O cérebro arcaico entra em estado de sobrevivência diante do risco, real ou simbólico, de exclusão, abandono e morte psíquica. Essas experiências podem produzir estados de hiperalerta, irritabilidade, ansiedade, colapso emocional, desmotivação e, finalmente, depressão propriamente dita.
Biologicamente, é como se o sistema dissesse:
“Não é seguro avançar.”
É importante compreender que esse estado não é um “defeito” do corpo e tampouco significa que ele esteja “contra nós”. Muitas vezes, trata-se de uma tentativa de proteger o indivíduo de continuar gastando energia numa realidade percebida como insuportável. Como um animal ferido que se recolhe para sobreviver.
Outro ponto essencial é apreender que é absolutamente natural que a psique viva períodos de expansão e recolhimento, avanço e regressão. O grande problema é que nossa cultura hipervaloriza apenas o “verão psíquico”: o bem-estar permanente. Todos felizes, motivados, fortes, disponíveis e inspirados o tempo todo. Mas como isso poderia ser possível?
A alma acompanha os movimentos da natureza. E toda natureza contém invernos, escuridões, silêncios e mortes. A depressão, em muitos casos, poderia ser comparada a um “inverno psíquico”. E o problema não é sua existência, mas a desconexão do sentido desse inverno.
Raiva não vivida. Dor não chorada. Desejos reprimidos. Vulnerabilidades violentadas. Necessidades emocionais abandonadas. É comum que a pessoa deprimida passe anos adaptada a essas condições. Até que a Sombra avança e cobra o seu lugar.
Mas o inconsciente não quer destruir você. Mesmo em estados de sofrimento profundo, existem movimentos psíquicos tentando acontecer: é a função compensatória do inconsciente. Os sintomas são tentativas do corpo-psique de chamar a consciência para dentro.
E aquilo que chamamos de “cura”, no fundo, significa aprender novas formas de expressão da existência, agora com mais sentido e desejo.
Nada na psique se resolve apenas com “força de vontade” ou mudança de pensamento. Será necessário sentir, simbolizar, elaborar, viver lutos, confrontar a sombra, reorganizar vínculos, recuperar o senso de pertencimento, criar sentido, restaurar a vitalidade corporal e sair de adaptações adoecidas.
Curar não é eliminar tristezas.
É restaurar o movimento da energia psíquica.
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